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O que é o Centrão? Como movimentá-lo a seu favor

O que é o Centrão? Como movimentá-lo a seu favor

“Em Brasília há quem vote por discurso, e há quem vote por recurso.”

O chamado “Centrão” não é um partido específico nem uma ideologia política bem definida. Ele é, antes de tudo, um modus operandi. Enquanto alguns parlamentares constroem sua atuação legislativa a partir de princípios ideológicos, outros trabalham dentro de uma lógica mais pragmática: trocam apoio político por ativos concretos, como cargos, liberação de emendas e influência no governo.

Essa dinâmica pode ser comparada ao funcionamento de um gerador de energia. Assim como uma turbina converte energia mecânica em eletricidade, um parlamentar do Centrão converte capital político em capital administrativo. O governo fornece um ativo eleitoral—seja a liberação de emendas parlamentares, cargos estratégicos ou apoio a projetos locais—e, em troca, recebe apoio legislativo. Esse apoio pode ser total, garantindo maioria confortável para o governo, ou parcial, em temas específicos.

Centrão Partidário: Pragmatismo Acima da Programática

Se no nível individual o Centrão opera como um gerador de energia política, no nível partidário ele se manifesta na prevalência do pragmatismo sobre as pautas programáticas. Um partido pode até ter uma linha ideológica central, mas, ao mesmo tempo, negociar apoios conforme as circunstâncias.

Tomemos como exemplo o Republicanos. O partido tem uma identidade fortemente associada ao eleitorado evangélico conservador, o que sugeriria uma oposição natural ao governo Lula. No entanto, sua atuação não se restringe a essa identidade. Em troca de influência e cargos, consegue dialogar com o PT e participar de sua base.

Outro caso emblemático é o União Brasil. Em Goiás, a legenda é comandada por Ronaldo Caiado, um dos principais opositores de Lula. Mas, ao mesmo tempo, o partido abriga três ministros na Esplanada. Essa flexibilidade programática permite ao União transitar entre a oposição e a base governista, dependendo das condições locais e das oportunidades oferecidas.

Já o PSD, presidido por Gilberto Kassab, mostra essa mesma lógica em outra escala. No Senado, o partido tem sido um dos principais esteios do governo Lula, garantindo votos decisivos para pautas de interesse do Executivo. Ao mesmo tempo, Kassab é secretário do governador Tarcísio de Freitas em São Paulo—um nome forte para a sucessão presidencial e potencial adversário de Lula em 2026.

Outro expoente clássico do Centrão é o PP (Progressistas). O partido tem um histórico de participação em praticamente todos os governos desde a redemocratização, oferecendo suporte político em troca de espaços estratégicos na máquina pública. Seu pragmatismo o tornou um dos principais articuladores do Congresso, negociando apoio conforme as condições do momento.

Mas nenhuma sigla representa melhor a lógica do Centrão do que o PMDB, atual MDB. Criado como um partido de oposição à ditadura militar, o MDB se tornou, com o tempo, um dos pilares da política pragmática brasileira. Desde a redemocratização, esteve presente em praticamente todos os governos, seja como aliado formal ou como fiador informal da governabilidade.

Foi vice de Fernando Henrique Cardoso, apoiou Lula e Dilma, com Eduardo Cunha articulou o impeachment da petista e governou com Temer, apenas para, em seguida, acomodar-se na base de Bolsonaro e, depois, de Lula novamente. Mais do que um partido ideológico, o MDB funciona como uma estrutura política capilarizada, com força regional e um instinto de sobrevivência que o mantém relevante em qualquer cenário político.

O Centrão Não é Presidenciável

Apesar de sua força no Congresso, partidos do Centrão raramente se consolidam como protagonistas em eleições presidenciais. Isso ocorre porque o Centrão é um espaço de negociação, não de liderança. Quando um partido do Centrão tenta se tornar presidenciável, sua estrutura pragmática trava: os interesses regionais se dividem, os parlamentares perdem a liberdade de negociação, e a unidade do partido é colocada em xeque.

O PL (antigo PR) ilustra bem esse fenômeno. Durante anos, foi uma sigla de aluguel, ocupando o Centrão e negociando espaços tanto com petistas quanto com tucanos. Foi vice de Lula, apoiou Dilma e, hoje, abriga a principal oposição ao governo, com Jair Bolsonaro. Ainda assim, isso não significa que o partido tenha abandonado completamente a lógica do Centrão. Muitos de seus parlamentares seguem trocando votos por emendas e cargos em temas que não mobilizam a base bolsonarista.

Esse comportamento híbrido reflete a dificuldade de um partido pragmático se transformar em uma legenda ideológica. O PL, ao abrigar a principal oposição, teve que se estruturar em torno de uma figura política e perdeu parte da flexibilidade que caracteriza os partidos do Centrão. Esse mesmo fenômeno ocorreu com o PSDB nos anos 90 e com o MDB nos anos 2010, sempre com o mesmo resultado: a máquina travou e o partido perdeu relevância.

O Centrão Não é Necessariamente Centrista

Algo mudou recentemente na dinâmica do Centrão. Se antes o pragmatismo bastava para garantir apoio e negociação, hoje os parlamentares precisam considerar um fator adicional: seu eleitorado nem sempre é centrista.

Um deputado do Centrão pode ser pragmático, mas seu eleitor pode ter votado em Lula ou Bolsonaro e espera uma atuação minimamente alinhada ao seu espectro político. Isso significa que, em pautas de maior repercussão pública, o parlamentar pode se sentir pressionado a votar de forma programática, evitando atritos com sua base eleitoral.

Por outro lado, pautas menos relevantes, que tramitam longe dos holofotes, continuam sendo passíveis de negociação política. Isso explica por que o número de parlamentares do Centrão pode variar de acordo com a temática em debate. Se um projeto envolve costumes ou segurança pública, o voto tende a ser mais ideológico. Se trata de orçamento, cargos ou regulação de setores menos visíveis, o pragmatismo volta a imperar. Desta forma, trazer luz a um projeto pode inviabilizar que ele seja votado como mera negociação política.

Critérios para Identificar um Partido ou Parlamentar do Centrão

  1. Troca de Apoio por Ativos Eleitorais
    • O parlamentar aceita cargos, liberação de emendas ou apoio político em troca de votos no Congresso.
    • O apoio ao governo pode ser total ou parcial, dependendo do contexto e do tema da votação.
  2. Pragmatismo Acima da Programática
    • O partido prioriza interesses estratégicos e eleitorais sobre uma ideologia fixa.
    • Pode até ter uma pauta central inegociável, mas negocia apoios em temas menos relevantes.
  3. Heterogeneidade Interna
    • O partido abriga parlamentares de diferentes espectros ideológicos, dependendo da região.
    • Pode ser oposição em um estado e governo em outro, sem contradição.
  4. Forte Influência Regional
    • O peso do partido vem de sua capilaridade nos estados, mais do que de um discurso nacional unificado.
    • Costuma ter caciques políticos locais com poder decisório sobre alianças e cargos.
  5. Dificuldade em Disputar a Presidência
    • Quando um partido do Centrão tenta lançar um candidato presidencial, sua estrutura trava.
    • O partido perde a flexibilidade de negociar apoios, o que gera divisões internas e crises.
  6. Sobrevivência Política Independente do Governo
    • O partido pode integrar a base de diferentes governos ao longo do tempo.
    • Já esteve na base de governos petistas, tucanos e bolsonaristas, dependendo do momento.

Exemplos de partidos do Centrão: MDB, Republicanos, União Brasil, PSD, PP.
Exemplo de partido que virou presidenciável e perdeu flexibilidade: PL (antigo PR).

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